Ao Anoitecer

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Separados...

E quando voltei já nada era como o esperado...
Encontrei apenas trevas...o sol não se mostrou...
Entrei no mesmo lugar de sempre e vi o pesadelo vivo
Um só tornara-se duas metades...
Dois seres incompletos...Infelizes...Zangados...Separados...
Os olhos que outrora eram quentes são frios...
A voz que antes cantava a união, grita a insatisfação
E toda a luz daquelas caras foi-se, substituída por sombra
Voltei...e o meu ideal era ruína...queimada, rasgada, destruída
Só restavam aqui e ali, pedaços fumegantes, pretos do luto...
E só eles choravam comigo, porque os outros já não existiam,
Os outros eram exteriores as trevas, ao pesadelo, a noite...
Se inimaginável se passar…o de sempre será o de nunca
Não...isto não pode estar a acontecer...

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Abandono

Acordei, cheio de arrepios, pertubado pela brisa que me tocava com frieza.Fiquei espantado por não ser acordado, como sempre, por as tuas palavras doces e suaves caricias...Senti logo a ausencia de algo.Uma falta de calor imensa...Não sentia o teu corpo contra o meu, aquecendo-se contra o frio do Inverno, numa harmonia perfeita.Não me abraçavas nem sequer me tocavas.era deveras bizarro...Rodei a cabeça e constatei, abruptamente, lençois virados...Nao nao podia ser verdade...Percibi com a rapidez de um relâmpago.Como foras capaz de me abandonar assim??? Levantei-me da cama abandonada constrangido pela dor e pelo frio.A cama inerte, estava vazia, abandonada com lençois virados pela pressa.Um calafrio percorreu me a espinha.Isto nao podia ser verdade.Embora eu preferisse que isto não passasse de um pesadelo o mais profundo do meu amago gritava que isto era real.Fui inundado por uma dor agonizante, uma dor que me trespassava e me mutilava silenciosamente.Tapei a cara com as maos e a imagem da tua pose delicada surgiu imediatamente.Não havia esplicação possivel.Tu partiras sem me avisar.Fugiras, como um rola que deixa o ninho sem remorsos.Dexi as escadas e fui para a sala ainda confuso e inundado por uma dor imparavel.Ancendi a fogueira com dois troncos e pinhas metodicamente, sem perturbar o seguimento veloz da minha mente.Então, recordei com amargura e melancolia, todos os momentos que prenchiam a minha vida de felicidade.O nosso primeiro beijo...a nossa casa...as nossas danças...o teu corpo afrodisiaco...os teus cabelos fulvos ao sol...os teus labios, bem desenhados e coloridos por Venus, a colarem-se aos meus...Arrastei os olhos pelo o chão pensativo...Não havia explicação possivel para o que se estava a passar...Eu pensava que o teu amor por mim era tao puro como a minha adoraçao pela tua alma e corpo.Tinhas-me deixado para o sempre e ao perder algo de tao precioso, mais precioso que a vida, algo de tao puro e belo nada podia haver a não ser um fardo pesado, a dor de uma alma vazia e um coração partido.O sangue que corria pelas minhas veias ja nao tinha calor...Levantei a cabeça e observei a lareira a arder enquanto te revia em memorias doces e ternurentas que nunca se iriam repetir.Não havia nada pior neste mundo que conhecer a felicidade, pura extasiante e verdadeira, para depois perde-la assim de repente sem aviso, sem preparaçao.Era tao duro que algo como o que eu sentia por ti fosse apagado e susbtituido por uma magoa tao terrivel, tão tantalica, a dor de um vazio inpreenchivel...Apesar de toda a dor,não chorei,a minha dor nao tranbordou e nao irrompi em lagrimas.A minha dor nao diminui,nao se esquecia.Era uma dor torturante que não me deixava pensar em mais nada para alem da terrivel perda.Observei o fogo que ardia,como sempre ardera,impassivo,insensivel a minha tristeza.
O fogo da minha lareira era fascinante.Ele crepitava e projectava fagulhas enquanto consomia tudo.Parecia que as faiscas devoravam tudo,a madeira,as memorias,e a dor...e nada mais ficava depois de aquela agonia do calor das chamas,so cinzas; pó para o vento levar.Continuei a olhar o fogo pensativamente.A minha vida ja não fazia sentido. Respirar não tinha significado. Para que viver uma vida de dor?
A chama ia consumindo a lenha numa lenta e calorosa combustao, devastava a vida com naturalidade cruel.Levantei-me e uma lagrima rolou pela minha face.Mais uns momentos e até dor seria cinza...

Flutuações



Está frio. É Inverno. É Natal. Esqueci-me das luvas, tenho tanto frio nas mãos. Mas de qualquer maneira, isto não foi premeditado. Em cada casa há luzes que deixam adivinhar um interior quente e confortável, famílias felizes na mesma sala. Cá fora, o que se adivinha é o nevoeiro que se forma lentamente, e que consigo notar à volta dos fracos candeeiros.
Vou andando sozinha pela rua. Um cão passa e vem cheirar-me, como quem cumprimenta um velho conhecido. Uma mulher velha atravessa a rua carregada de sacos. E eu continuo concentrada em não cair da berma do passeio, porque cada lado é um abismo. Continuo concentrada na minha respiração ofegante pelo frio, e num pé a seguir ao outro. Continuo concentrada nos meus dedos paralisados pelo frio. Concentro-me, porque o contrário é uma vertigem que não quero reencontrar. E assim continuo, lenta, pelo passeio interminável. Oiço uma janela correr, e o meu coração palpita na expectativa feliz de ouvir alguém chamar o meu nome. Mas conformo-me ao ver um homem sair para fumar à varanda, e observar o quarto minguante que a lua faz esta noite. Sigo-lhe o olhar. Mas já não há nada que me atraia lá em cima.
Lembro-me quando as árvores me falavam. Mas agora já nada me dizem; calam-se, zangadas, ou magoadas, ou sei lá eu porquê. As estrelas também já não brilham como antes. Ou serão os meus olhos inchados do choro que já não vêm da mesma maneira? De qualquer forma, isso não muda nada. Está diferente e pronto. De que serve lutar?
As vezes sou tão diferente de mim mesma. Onde fui eu buscar este olhar conformado e estas palavras condescendes? Para onde foi o brilho do meu cabelo, e a força da minha vontade? Ficou tudo escuro, tudo indistinto. Tudo... frio.
Sei que se eu correr, o frio passa. Se eu correr, vai-me parecer outra vez ouvir as vozes das árvores. Se correr, vou sentir as estrelas outra vez lá no alto, simplesmente porque não posso correr e olhar para cima. E essa segurança dá-me mais força para correr.
Para quem vive sem certezas, a pior das incertezas é o frio num olhar. No teu.
E esse... não passa se correres.




26.12.2006