Flutuações
Está frio. É Inverno. É Natal. Esqueci-me das luvas, tenho tanto frio nas mãos. Mas de qualquer maneira, isto não foi premeditado. Em cada casa há luzes que deixam adivinhar um interior quente e confortável, famílias felizes na mesma sala. Cá fora, o que se adivinha é o nevoeiro que se forma lentamente, e que consigo notar à volta dos fracos candeeiros.
Vou andando sozinha pela rua. Um cão passa e vem cheirar-me, como quem cumprimenta um velho conhecido. Uma mulher velha atravessa a rua carregada de sacos. E eu continuo concentrada em não cair da berma do passeio, porque cada lado é um abismo. Continuo concentrada na minha respiração ofegante pelo frio, e num pé a seguir ao outro. Continuo concentrada nos meus dedos paralisados pelo frio. Concentro-me, porque o contrário é uma vertigem que não quero reencontrar. E assim continuo, lenta, pelo passeio interminável. Oiço uma janela correr, e o meu coração palpita na expectativa feliz de ouvir alguém chamar o meu nome. Mas conformo-me ao ver um homem sair para fumar à varanda, e observar o quarto minguante que a lua faz esta noite. Sigo-lhe o olhar. Mas já não há nada que me atraia lá em cima.
Lembro-me quando as árvores me falavam. Mas agora já nada me dizem; calam-se, zangadas, ou magoadas, ou sei lá eu porquê. As estrelas também já não brilham como antes. Ou serão os meus olhos inchados do choro que já não vêm da mesma maneira? De qualquer forma, isso não muda nada. Está diferente e pronto. De que serve lutar?
As vezes sou tão diferente de mim mesma. Onde fui eu buscar este olhar conformado e estas palavras condescendes? Para onde foi o brilho do meu cabelo, e a força da minha vontade? Ficou tudo escuro, tudo indistinto. Tudo... frio.
Sei que se eu correr, o frio passa. Se eu correr, vai-me parecer outra vez ouvir as vozes das árvores. Se correr, vou sentir as estrelas outra vez lá no alto, simplesmente porque não posso correr e olhar para cima. E essa segurança dá-me mais força para correr.
Para quem vive sem certezas, a pior das incertezas é o frio num olhar. No teu.
E esse... não passa se correres.
26.12.2006

1 Comments:
Este momento é historico! Neste preciso minuto eu (poeta por acabar =P) estou a meter o primeiro comentario no nosso blog!
Bem, espero que este blog se encha de textos nossos e espero que seja para ambos uma fonte de divertimento e de inspiração. Bj***
Ps:agora sobre o texto =P
Vale a pena dizer que gostei muito?
=)=P
Gostei muito deste texto pela abstração que há nele, pelo os simbolos, pela maneira como passaste o sentimento da personagem principal, a simplicidade e frieza da paisagem aos olhos da personagem proncipal; Tambem gostei das perguntas que ela faz a si propria...(eu gosto sempre das auto-interrogaçoes e dos pensamentos das personagens)
Enfim...adorei
Bj*** António
Enviar um comentário
<< Home